Internações do ano – Parte II

Ainda estamos internados… A Tetê está dependente do oxigênio. Há oito dias, hoje foi o primeiro momento que conseguimos desligar o aparelho de oxigênio. A saturação ainda está baixa, mas começou a segurar nos 90, 91 (o que é o normal da Teteca). Que difícil ver nossa filha bem e não recebermos alta por causa da saturação. Está demorando tanto desta vez que a pneumologista está pedindo uma ecocardiograma para verificar a pressão arterial e o gradiente de fluxo sanguíneo no tubo que ela implantou quando fez a correção da cardiopatia. Será que está se aproximando o momento da segunda cirurgia da Pequena?

Isso me faz lembrar aquela mãe “cantora” que nós conhecemos lá na última internação. Assim que voltamos para a UTI, em abril, ela ainda estava lutando com a guerreira dela. Após 10 meses, ainda era uma criança pequena e não recebia alta, porque não estava ganhando peso o suficiente, entre outras decorrências mais graves. No entanto, a cada momento que eu via o sorriso daquela mãe cuidando daquele serzinho inocente, frágil e resistente, eu apenas me sentia agradecida a Deus por este tipo de amor existir de verdade. Pais e mães como nós, entendemos que a missão de nossa vida extrapola os nossos limites tão humanos, somos forçados o tempo todo superá-los, precisamos fazê-lo, porque nossos filhos dependem desta entrega para também superarem as limitações deles. Mas não pensem que o fazemos de maneira tranquila, ou que somos sempre fortes, a nossa oscilação é constante e, ao final, temos realmente que garantir nossa força nos agarrando a tudo que nos está perto: amigos, família, Deus. Sem eles, o vazio só aumenta.

Durante esta internação conheci também a mãe de outro garoto com paralisia cerebral e tendo 16 anos. Este foi outro grande aprendizado, uma avó sempre presente, assistia com ele a todos os filmes e desenhos que mais gostava. De uma alegria contagiante, presença confiante, sendo para ele companhia diária na vida de internação e em toda a confusão de procedimentos que existe em uma UTI. Claro que estão bem mais adaptados às deficiências que eu mesma. Uma das tardes, almoçamos as três juntas e foi uma troca de experiências muito importante. Eu sempre aprecio estes momentos como carinhos de Deus para nos abastecer do combustível necessário. Ver a dor do outro sempre nos faz crescer em nossa dor, porque cada um tem nesta vida toda a fonte de aprendizados que precisa conquistar para almejar uma vida onde o imperfeito desaparecerá. Não posso pensar diferente disso, pois quem está diante de uma vida de limitação e superação compreende perfeitamente que nossa vida não termina aqui neste plano material.

Assim que saímos do hospital, tivemos um pouco de férias, os avós paternos da Tetê estiveram em Brasília e passamos uma semana maravilhosa, para ao final dela, voltarmos de novo ao hospital… sabe que eu já estou começando a ter crise de ansiedade quando percebo a respiração da Tetê ficando alterada? Afff, que sentimento horrível de derrota me passa nestes momentos. Por glória do Senhor, a médica considerou a nossa situação de stress e o desespero da nossa filha, assim nos liberou da internação para fazermos o tratamento em casa. Solicitamos fisioterapia respiratória diária e fomos atrás da pneumologista para tentarmos um tratamento profilático, afinal, o inverno só estava começando.

A profilaxia com a primeira medicação veio dando certo e conseguimos ficar em casa de maio a agosto quando internamos pela quarta vez. Após dez dias internados, a Tetê voltou a saturar bem e recebemos alta. Foi um momento difícil, pois começamos uma discussão da necessidade ou não de home care. Ao final, decidimos ir para casa, o coração está bem de novo, e nossa filha não teve nenhuma infecção apesar dos médicos a terem tratado com antibióticos novamente.

Voltamos para casa e ficamos bem durante toda semana. Porém, na noite de sexta para sábado, dia 24 de agosto, senti novamente aquele aperto no peito. A Tetê não dormiu bem, acordou com o nariz entupido, não gostei nada disso. Sábado foi o dia inteiro tossindo e espirrando. Meu coração diminuindo ainda mais. Então, domingo, a desaturou de novo! Mal podia acreditar, havíamos saído do hospital há 10 dias, teríamos que voltar? Esperamos o máximo possível, não adiantou, a filhota dormiu e a saturação foi a 82. Voltamos para o hospital, mais raio x, mais exames de sangue, mais gritos de medo, dessa vez tudo estava tão difícil… meu coração estava triste demais e ver minha filha chorando de pânico gera sempre muito stress.

01 de setembro de 2012

Ainda estamos no hospital…

E a maior angústia que enfrentamos dessa vez é não saber o porquê dessa queda na saturação. Apenas uma gripe causou tudo isso? Como a insegurança da dependência do oxigênio nos tira dos eixos… temos uma natureza muito independente da nossa casa, pensar na possibilidade de um isolamento me deixou abalada novamente. Nossas férias estão chegando, precisamos decidir novamente sobre home care ou oxigenoterapia, e além disso, rezar muito para ver se reencontramos o equilíbrio das coisas que não dependem da gente.

Esta noite, eu e o marido passamos acordados em turnos para monitorar a saturação. Estava baixa, mas não caiu de 88 e fomos tolerantes para não ligar o oxigênio de novo (isso por causa da cardiopatia dela). Porém ainda não fomos embora, pois precisamos saber como será essa noite. Acreditamos que conseguiremos receber alta amanhã, e após muita discussão entendemos que a nossa melhor opção, pelo perfil da nossa filha, é a oxigenoterapia de SOS, pois ela não é dependente. No entanto, moramos em Brasília, onde estamos com 20% de umidade relativa no ar, isso dificulta bem as coisas para uma criança com problemas respiratórios.

Por fim, completadas as primeiras 48 horas sem a necessidade de ligar o O2 recebemos alta e fomos para casa ainda na dúvida do motivo da desaturação, porém, saímos na fé da melhora dela. Temos vários exames para realizar. Por enquanto, finalizo este post com uma pequena reflexão encaminhada por nosso diretor espiritual, que foi de grande ajuda nesta tribulação:

“Há épocas na vida em que o nosso Deus – bondoso e amoroso – permite que alguma coisa ruim aconteça a uma pessoa boa. Às vezes, ele não responde às nossas orações quando e como gostaríamos. Aí, então, aumenta a incerteza a respeito de Deus e sobre nós mesmos, nossa vida, nossas possibilidades, nossas expectativas. Ficamos esperando ansiosos que a resposta de Senhor seja ‘sim’, e ele diz ‘não’ ou ‘espere’.

Mas a verdade é que Deus não deve nada a nenhum ser humano. Nós, ao contrário, devemos tudo a ele. Se o Deus dos impossíveis, o Pai eterno, nos der poucos ou muitos anos de vida, se ele prover ou não todas as nossas necessidades e alguns dos nossos desejos, nosso dever será sempre obedecer-lhe, louvá-lo, adorá-lo”.

Internações do ano – Parte I

13 de agosto de 2012

Após todos esses dias internados, confinados entre quatro paredes de um quarto de hospital, nosso senso de racionalidade fica extremamente comprometido: toda a musculatura de nosso corpo dói o desconforto dos leitos; nosso estômago dói a fome da comida boa; nosso coração dói o peso do isolamento; nossa fé dói com o peso da ignorância de não sabermos o que de fato está acontecendo. É impressionante como não satisfazer nossas necessidades básicas nos torna tão frágeis. Como perder o controle sobre a nossa vida, e da vida de quem amamos, faz de nós criaturas pequenas e perdidas, totalmente sensíveis e chorosas.

 

No entanto, esta história não começa hoje. Assim me encontro neste momento, durante a quarta internação da Teteca neste ano. E é sobre isso que eu vou falar para vocês.

 

Cada internação tem as suas características de superação e aprendizado. No começo deste ano, em fevereiro para ser mais específica, a Maria Tereza teve uma convulsão. Ficamos aturdidos, ela estava com uma febre que não baixava nem com remédio, nem com banho. Fomos ao hospital, e por providência divina, ela convulsionou na frente da pediatra. Essa foi nossa primeira vez na UTI com a nossa Pequena. Ela não tinha nenhuma infecção e estávamos lá para observação, pois não sabíamos o motivo da convulsão. Aqueles dias foram muito difíceis, porque eu fiquei com medo do quadro neurológico dela estar se agravando.

 

Porém, fora diagnosticado um processo viral e depois de cinco dias nós saímos do hospital. Dessa experiência eu conheci a mãezinha do leito ao lado, a filha, cardiopata, tinha feito a mesma cirurgia da Tetê, com algumas complicações. Foi bom participar daquele momento da vida delas, sofrido pela realidade, mas gratificante por enxergar o amor doce e musical daquela mãe. Ela cantava o tempo todo, tinha uma fé revigorante, não morava em Brasília e veio para cá por conta da cirurgia da filha. Entrou de licença no trabalho para cuidar dela, dia e noite, na UTI, eu aprendi muito com ela e muito sobre como era superar a cirurgia que minha filha tinha feito aos três meses de vida.

 

Ao sair desta primeira internação, procuramos o neurologista dela para entender a convulsão e as consequências que a mesma teria na minha filhota. Após o exame com o eletroencefalograma, descobrimos que a Tereza não tem epilepsia (com o quadro de atraso motor dela essa notícia foi um verdadeiro alívio), mas convulsão febril. Iniciamos o tratamento com gardenal (fenobarbitúrico), porém, esta medicação prejudicou em muito as evoluções da Tetê, que teve uma perda motora imensa, perdeu até o controle cervical já adquirido com tanta dificuldade. Além de ficar meio dopada, entrava em um processo de agitação terrível, para dormir era uma luta, não ficava parada, era terrível de ver. Meu coração de mãe estava inconsolável, deveria haver solução, afinal a medicina evolui a cada dia. O médico identificou uma inadequação do remédio, pois ela teve muitos efeitos colaterais, e como a convulsão é febril, optamos por experimentar o tratamento com o diazepan, em supositório, administrado apenas no momento de estado febril.

 

Em meados de abril, tivemos uma nova complicação febril, administramos o diazepan, porém, não foi suficiente, a Tetê convulsionou de novo. Estávamos em casa, a colocamos deitada de lado na cama, para não sufocar com a saliva e nem se machucar, e esperamos passar (por pior que seja a sensação). Depois foi aquela correria para o hospital, porque a volta da convulsão é inesperada, no caso da Tetê, os batimentos cardíacos ficam acelerados e a saturação de oxigênio sofre uma queda. Como sabíamos o motivo da convulsão, os médicos a colocaram em observação até saber do que se tratava o sintoma de febre. Assim que saiu o resultado dos exames, identificaram uma infecção de ouvido e ficamos internados no quarto mesmo, para iniciar a medicação intravenosa.

 

No terceiro dia do tratamento, a Maria Tereza piorou muito o quadro respiratório, e fomos parar na UTI pela segunda vez… Aquilo me derrubou. Não tem nada pior que ver a Teteca internada, ela é muito traumatizada com a hospitalização, chora sem parar, se alguém chega perto do leito ela se desespera. Isso gera um cansaço por desgaste emocional nela e em nós, o olhar de apelo que ela nos lança é assustador, pior ainda, quando tem que pulsionar a veia, o desespero dela, a dificuldade dos técnicos, chega um momento que é só Nossa Senhora para guiar a mão dos melhores profissionais, dos mais calmos, dos que são bons para pegar veias difíceis. Sendo mãe, eu me esforço muito para acalmá-la, mas só depois dos procedimentos, porque durante é impossível. O máximo que podemos fazer é afirmar o tempo todo que ela não está mais sozinha, que ela tem mãe e pai, que ela tem família. Renovar nela a segurança de que não será abandonada.

 

Como psicóloga eu não consigo ter certeza do tamanho das memórias que a Tetê formou, somente quando entramos no hospital é que percebemos o quanto tudo é tão presente nela. Enquanto profissional o que me resta é acreditar na ressignificação de tudo isso com ela ao longo dos anos, construir novas histórias, novos sentimentos. Como mãe eu sinto na pele o quanto é duro convencer um bebê de dois anos que tudo isso é para o bem dela, que apesar de toda a dor, isso tudo é para curá-la. Como responsável pelo desenvolvimento dela, percebo o quanto é duro ver os progressos de minha Pepeka ficando em pausa a cada internação, aqueles passos para trás, para depois dar mais passos para frente. Dessa vez duramos 7 dias na UTI, e mais 3 no quarto… doze dias ao todo, divididos entre medo e esperança, pioras e melhoras, lágrimas e sorrisos. Apesar de ver o quanto ela está ficando mais forte a cada vez.

 

E adivinha? Reencontramos conhecidos na UTI, depois de dois meses de nossa alta, eles ainda estavam lá. Querem saber um pouco mais desta história? Vão precisar aguardar a segunda parte!

Pai cria programa para se comunicar com a filha que tem PC

Mais de 12 mil figuras, um programa de voz e um repertório ilimitado de frases e situações do dia a dia conectaram a pequena Clara com as pessoas e com a vida. É como se ela falasse através do tablet.

Por Beatriz Castro

A tecnologia também pode ajudar pacientes com dificuldades de comunicação. Ainda mais quando o amor motiva novas descobertas. Aconteceu no Recife, Pernambuco.

Um amor sem limites: Carlos é pai de Clara, de 4 anos, que tem paralisia cerebral. Analista de sistemas, ele usou o conhecimento e a persistência para transformar a tecnologia em uma aliada da menina.

Ele criou um programa de computador para tablets e celulares que permite a comunicação com a filha: o Liberdade em Voz Alta.

“A necessidade que a gente tem de conversar, que eu tinha de conversar com a minha filha é muito grande. Algumas pessoas que têm pacientes ou familiares que não falam às vezes se acostumam, pelo fato deles não falarem, mas eu acho que a gente não pode se acostumar”, diz Carlos Pereira.

Mais de 12 mil figuras, um programa de voz e um repertório ilimitado de frases e situações do dia a dia conectaram a pequena Clara com as pessoas e com a vida. É como se ela falasse através do tablet.

A comunicação está ao alcance de um toque na tela. O programa permite muito mais: a criança pode dizer se está com dor, como foi o dia na escola, e o que deseja comer.

“A gente quer ir mais além, produzir talvez em escolas, para ter uma inclusão dessas pessoas dentro da sociedade”, conta a mãe de Clara, Aline Pereira.

Thaís não fala, e ganhou mais autonomia. Ela consegue expressar tudo que deseja.

“Acho que a comunicação traz muita independência para ela. Dentro de casa ela faz os gestos e a gente compreende”, conta a mãe de Thaís.
A família Pereira decidiu que vai compartilhar o sistema de graça pela internet com todos os pacientes que precisam desse tipo de ajuda.

Para mais informações, acesse o site do aplicativo  http://www.agoraeuconsigo.org/livox.php

Fonte: Bom dia Brasil

Postado por: Vera Garcia Data: 23 julho 2012 em: Ciência e Tecnologia, Deficiência Física, Destaques |

Entre o carrinho de bebê e a cadeira de rodas

Julho de 2012

– “Maria, você não acha que o João está muito grande para andar nesse carrinho? Chegou a hora de você providenciar uma cadeira de rodas!”

Olhei para a mãe do João que estava a minha frente, um silêncio formou-se em seus lábios. Percebi que o ambiente ao redor dela havia diminuído. Não havia palavras a ser pronunciadas, apenas uma confusão de sentimentos e falta de respostas.

Meu coração tornou-se vigilante do silêncio dela, fiquei ali, olhando para aquele momento único, como quem podia, talvez, compartilhar da mesma agonia. Era chegada a hora? Perguntei a mim mesma. Seriam aquelas as palavras que fariam sentido, que dariam coragem a este enfrentamento? O que aquele silêncio gostaria de gritar se pudesse? Os olhos da mãe ainda paralisados diante do questionamento da profissional que a acompanhava há tantos anos, aquela a quem tornou responsável por parte do desenvolvimento do seu, até então, bebê. Aquilo tinha um crédito absurdo e esperava uma resposta.

Compartilhei um sorriso com aquela mãe, afinal, saberia bem o sentimento se a pergunta tivesse sido dirigida a mim, e sabia bem que aquilo não era uma pergunta. Dez segundos. Este foi o tempo gasto para ouvir a constatação da fisioterapeuta, mas bem maior era o tempo necessário para qualquer tipo de resposta. Que não houve, não era preciso. Não era possível. Afinal, ela poderia responder a quê?

Ao preconceito que existe em nós mesmos quanto a termos um filho deficiente? À falta de calçadas adequadas, às ruas esburacadas, ao carrinho de bebê tantas vezes emperrado? Ao bagageiro do carro onde mal cabe um carrinho dobrado? À falta de acessibilidade? Aos corredores estreitos dos restaurantes? Às escadas, sim às escadas? Aos banheiros em locais públicos? Ao desrespeito às vagas de estacionamento para deficientes e/ou condutores? Às mesas das escolas? Aos olhares que não nos escapam na rua quando, enfim, sabemos que nossos filhos não cabem mais nos carrinhos de bebê? Ao embarque no avião? Aos carrinhos de supermercado? Não há nada romântico em ser cadeirante!

Uma coisa está certa nesse mar de perguntas, é chegado o momento em que não podemos mais carregar este filho no colo, é pesado demais! Já vi mães carregando crianças de quase vinte quilos em seus colos, e também pensei com o pragmatismo daquela nossa fisioterapeuta:

– “Maria, é melhor para você e para ele!”

SIM, EU SEI! E saber não basta! Não basta para que essas respostas todas sejam respondidas. Não basta, porque queremos as nossas próprias respostas. Não basta, porque teríamos que assumir a realidade aos nossos pés. Não basta, porque compreendemos perfeitamente que é inadiável. Não basta, porque queremos proteger o nosso filho do mundo. Não basta, porque sabemos que é verdade!

Quando eu era apenas mais uma na multidão, eu teria respondido apenas: “Sim, é preciso providenciar a cadeira”. E agora, mãe da minha Tereza, eu olhava para aquela mãe com a compaixão do meu coração. Porque chegou o momento dela, e eu sei que assim como tantos outros momentos, ela sairá dali, e colocará tudo isso em prática, pois sempre faz o que é melhor para o filho dela. É mais difícil admitir que agir. Eu sei. Ela sabe. Todas as mães sabem quando é hora de “empurrar o filhote para fora do ninho”, só assim ele aprenderá a voar.

Temos poucas respostas sobre o quanto nossos filhos serão capazes de fazer, ou se serão capazes de andar sozinhos. Porém, quando chegar o momento de escolher largar o carrinho de bebê e aceitar uma cadeira de rodas, eu espero ter aprendido com todas essas mães que passaram por minha vida. Hoje, eu tenho grandes esperanças de sair do carrinho e passar para o pacer, pois sei que minha filha tem grandes chances de andar sozinha se praticar, se continuar evoluindo. No entanto, isto está sendo alcançado porque a Tereza pode, porque tem mostrado nas atividades da terapia ocupacional e fisioterapia. A minha certeza, no entanto, está apenas baseada em minha fé.

É aqui onde mora o romantismo: em como escolhemos viver tudo isso!

Menina do meu bem querer

Meus cinco sentidos voltados a minha Menina

VISÃO

 Menina que olha

Um olhar tão profundo

Até que invade a alma

E aquece qualquer coração.

Olhar de Menina, brava Menina,

Longo alcance de quem sabe o que quer.

Menina que me olhou,

E me amou com o olhar e chegou para ficar.

Minha menina, presente de outra menina,

Uma Santa Menina, uma Albertina,

Uma “Tininha” que nos olhou e cutucou nosso Pai,

Para nossas vidas mudar!

Menina a quem não me canso de olhar!

TATO

 Menina sapeca,

De amor puro e envolvente.

Seu toque delicado e suave,

Suas mãos anseiam afagar.

 Menina que luta,

Fortaleza absoluta nesse corpo frágil,

Tanto ainda para aprender,

Um mundo inteiro para encontrar.

Menina que supera os limites

Que não tem tempo para preguiça,

Quando algo lhe dá prazer,

Vejo suas pernas pedaladas agitar!

Seus dedinhos em meus cabelos,

Uma hora carinho, uma hora dor,

Às vezes tão ligeira e tão esperta

Minha Menina gostosa de abraçar.

Menina a quem não me canso de apertar!

 

PALADAR

 Menina sorriso cheio de dente

Quem um dia só te viu de sonda

Nunca imaginou aonde você pudesse chegar.

 Essa minha Menina dengosa e gulosa,

Comer sozinha eu não pude nunca mais:

O olhinho sempre mira minha comida

A boquinha sempre aberta para experimentar!

Menina observação encantadora,

Gostoso o seu sorriso escancarado

Ao ouvir o microondas apitar,

Só na expectativa da mamadeira ganhar.

Meu coração palpita por essa menina,

Tão forte quanto seus gritinhos de euforia

Na hora de começar a “papar”,

Tão suave quanto suas mãozinhas,

Que mostram quando quer parar.

Menina alegria da gente a nos contagiar!

AUDIÇÃO

 Moleca Menina dingdingdingdom

Coisa rara, tão perfeita é a sua audição,

Difícil até de acreditar

Mas basta alguém lá na porta chegar

Para seu sorriso logo se esparramar.

 Menina que já sabe que é o papai,

Quando escuta a chave balançar,

Menina que canta quando ouve a vovó cantar,

Que saltita de alegria e parece dançar!

Menina linda da mamãe

Nada me encanta mais que o seu ouvir,

O perceber onde as músicas podem lhe levar,

O violão do vovô, a gaita do titio,

Menina que parece se completar

De empolgação quando os ouve tocar.

 Menina som do coração a nos iluminar! 

 OLFATO

Cheiro de Menina, Menina de cheiro

Pedaço do meu ser

Essência de minha alma

Toque de Deus em meus sentidos,

Rosa de Maria em meu simplório jardim.

Sentido de mãe loba que fareja,

Que reconhece os seus onde estiver,

Menina doce que desperta meus instintos

E me inebria apenas por se aproximar.

 Menina de pele macia

Que exala o perfume dos anjos,

Odor de meu coração,

Frescor de minha juventude

Complemento de meu sangue

Sentido da minha maternidade.

 Menina a quem não me canso de cheirar!

Primeiro GRANDE susto

25 de julho de 2011

Nunca imaginei que a luta de uma criança pela vida poderia ser tão intensa…

 Nunca imaginei que o coração de um pai e de uma mãe poderia suportar tamanho susto…

Nunca imaginei que segurar minha filha no colo, cianótica, sem respiração, poderia doer como se uma parte de mim estivesse sendo arrancada…

E mesmo sem poder imaginar tudo isso, vivenciei a experiência mais dolorosa de minha vida.

Semana passada, o que parecia uma simples gripe, até menos grave do que nas outras vezes, transformou-se em um susto enorme: sábado, dia 23/07, poderia ter sido uma data fatal em nossas vidas, um dia como qualquer outro, onde estava tudo acontecendo da mesma maneira. Após a segunda noite mal dormida por causa da tosse da Teteca, acordamos cedo, quando ela chorou de fome para nos chamar, sorriu para mim quando cheguei à frente do berço, esperou até que eu fosse à cozinha preparar a mamadeira, e, então, peguei-a no colo para dar o leite.

Como procedimento padrão de quando ela está com o nariz “entupidinho”, coloquei soro fisiológico para ajudar, fizemos a bombinha de sabutamol, dei a mamadeira devagar e com cuidado para ela não engasgar, tudo tranqüilo. Terminado o desjejum, coloquei-a pra dormir no meu peito, como todos os sábados quando ficamos na cama juntos até as nove mais ou menos.

E foi quando começou a agonia: estava quase cochilando e percebi que minha filha abriu os olhos de forma meio arregalada e parada. Brinquei com ela dizendo que estava querendo acordar muito cedo, mas ela não reagiu. Achei estranho e me levantei um pouco para pegá-la no colo, ela não riu pra mim… isso não era normal. E não foi mesmo!

Naquele momento percebi que ela estava sem reação, meio trêmula e ficando roxa. Interpretei que ela estava tendo uma convulsão e gritei para o André. Em poucos segundos ela ficou com os lábios completamente roxos e não estava respirando… Tudo o que aprendi em minhas aulas de primeiros socorros domésticos sumiu de minha mente, só conseguir gritar que minha filha não estava voltando. Olhava aqueles olhinhos apaixonantes e eles não tinham vida. Achei que minha filha ia morrer, comecei a pedir a Deus que viesse em nosso socorro.

E em seus mistérios, Deus nos mandou um anjo, o tio Zezinho (estávamos morando na casa dele havia uma semana – coincidência?), que foi o único a ficar calmo, pegou-a do colo do André e, enquanto eu corria para pegar minha bolsa para sair ainda de pijama, esticou-a deitada de barriga para cima no sofá, posicionou o pescoço dela de forma a liberar as vias respiratórias, e deu umas batidinhas perto do coração. Teve o impulso e a técnica, e naquele momento foi tudo certo, foi instrumento de Deus, desobstruiu as vias respiratórias da minha preciosa e ela voltou a respirar.

Nem sei se consigo expressar o que se passou naqueles poucos segundos. Não sei quanto tempo durou, foi muito rápido e pareceu uma eternidade. Mais uma vez podemos sentir que o Senhor providencia tudo: não estávamos sozinhos, a tia Iara e o tio Zezinho estavam acordados às 7 da manhã no sábado, mesmo no meu escândalo, tudo foi acontecendo para todos agirmos rápido. Deus devolveu a vida para nossa Pepeca, mais uma vez, ela continuou com a gente. A sensação de alívio no momento em que ela voltou a respirar é impagável, eu grudei nela e, só então, comecei a chorar. Naquele momento tudo passou, nada mais importava, só a vida da minha filhota.

Hoje estamos cansados? sim, é claro. Mas felizes até com a internação, pois Deus derramou novas graças sobre a minha família, e temos que louvá-Lo por tanta bondade em nos socorrer naquilo que nos é mais precioso! Estamos encarando da melhor maneira tudo o que está acontecendo (o oxigênio, a observação monitorada no hospital), porque sabemos o valor da luta. Estamos vendo o quanto a nossa filha está mais forte, por isso, nessa internação soubemos nos posicionar bem melhor diante da equipe do hospital. Na primeira vez que internamos, éramos dois pais de primeira viagem com a filha “nascida” para nós há um dia, ou seja, não a conhecíamos, agora é diferente.

Ainda não temos certeza se o que vimos foi alguma convulsão, mas pelo que todos estão dizendo foi o engasgo que provocou a cianose. Descobrimos que nossa Pequena tem sinusite, as vias respiratórias estavam com obstrução por causa da secreção, porém o pulmão está limpo. Haja emoção… Sobrevivemos a mais essa! Agradecer é o que nos resta, certos que ainda poderemos curtir mais um tempo a nossa missão de pa-maternidade. Amém!

Para que se cumprisse

Tudo foi preparado

Às vezes me coloco a pensar em como Deus providencia todas as coisas. Desde quando comecei a ler a Bíblia, sempre percebia a riqueza da história da nossa salvação, como tudo foi perfeito nas profecias que se antecederam à vinda de Cristo, e na própria presença do Verbo Encarnado na terra. Tudo foi preparado, não há nada que tenha ocorrido por acaso, não há nada que não tenha sido pensado por Deus.

Então, vejo a história de nossas vidas, tão humanas e tão perfeitamente contadas. É claro que muitas vezes não alcançamos a perfeição dos acontecimentos. Nossos sentimentos nos revelam dores, inseguranças, negações, não aceitação de nossas condições… enfim estamos sempre pensando que a vida deveria ser de outra maneira, ter menos defeitos, menos dificuldades, ser mais fácil, ser mais empolgante, ser mais, e mais, e mais… Se pudéssemos, talvez escolheríamos a cor de nossos olhos, a forma dos nossos cabelos, a estrutura de nossos corpos, então tudo nos seria perfeito.

Por que tanta dificuldade em enxergamos a perfeição do que Deus escolheu para nós? Tenho experimentado no corpo e na alma a grande dificuldade da entrega total aos planos de Deus. Meu espírito controlador muitas vezes deixa passar a graça de compreender que tudo foi feito para que a Maria Tereza chegasse a minha vida e a vida do meu marido. Nos longos anos de nosso casamento sem filhos, fomos vivenciando tudo o que Deus estava providenciando para nossa paternidade “especial”.

A grande preparação que o Senhor provocou foi na nossa vida profissional. Começamos a trabalhar há uns bons treze anos, assim que nos formamos já estávamos empregados, o André e 1999 e eu em 2000. Neste mesmo ano nos casamos, com o nosso baixo salário, pagávamos aluguel e conseguimos comprar nosso primeiro carro. Muitas foram as nossas decepções e sofrimentos no trabalho, fruto muitas vezes da inocência e bondade de nossos corações. No início sofremos muito, enfrentamos demissões injustas e esmagadoras, que nos fortificaram na plena confiança de que nada nunca nos faltou.

Ao mesmo tempo, cada vez que recomeçávamos, o sonho da gravidez era adiado. E ano após ano, essa graça parecia ainda mais distante. Em nossa lógica humana, nada nos faltava, lá pelos quatro anos de casados, nós dois tínhamos bons empregos, apartamento próprio, carro, boa relação conjugal e familiar, mas nada disso ainda era o suficiente. Por que não?

E foram mais seis anos de espera…

E qual era o nosso cenário? O André trabalhando em uma empresa ótima, estável, excelente plano de saúde, salário compatível com nossas necessidades, terminando uma pós graduação. Eu, havia mudado de emprego há um ano, pós graduada, meu salário também estava ótimo, e embora estivesse em uma empresa privada, também tinha estabilidade e muita flexibilidade por parte dos gestores e colegas de trabalho. Ou seja, tudo havia sido preparado. Em nossos corações, o desejo de um filho era cada dia mais latente, assim como no coração de nossos pais e familiares.

Então Deus nos fez o convite mais audacioso de nossas vidas, aceitar sermos pais da Maria Tereza, uma criança com várias necessidades especiais, e a única condição que nos foi pedida foi amar incondicionalmente. Convite aceito, passamos a viver da providência divina.

1º – Promoveu uma aceitação natural e absoluta de toda nossa família, nunca houve ninguém que a rejeitasse.

2º – Encaminhou vários profissionais extremamente dedicados e empenhados em participar do desenvolvimento da nossa Tereza, não somente na parte profissional, mas tantas vezes responsáveis pelo suporte emocional desses pais tão despreparados. (Não consigo parar de pensar que nossa Pepeka sozinha no mundo já tinha resistido a uma cirurgia de coração aos três meses de idade!)

3º – Empregou-nos em locais fantásticos. Em um ano e meio, o André conseguiu aprová-la no Programa de Dependentes com necessidades especiais da empresa dele, lá nós temos todos os benefícios necessários para todos os tratamentos que ela precisa, e para as melhorias no desenvolvimento motor, cognitivo, psicossocial e afetivo. E eu em meu emprego…

Ah, chegou a hora de finalizar a conciliação de meus papéis mãe, esposa, psicóloga e mulher. Fui falar com minha chefe, quando entrei na sala dela para pedir demissão, ela me olhou e antes que eu dissesse qualquer coisa, foi logo dizendo que não aceitaria minha demissão:

 DEUS HAVIA PREPARADO TUDO.

Não precisei sair do emprego, por lei, a mãe de uma criança com deficiência tem direito a acompanhar o filho em todas as atividades necessárias ao desenvolvimento dele. Claro que não é fácil, hoje eu trabalho com as mesmas atividades, mas com maior flexibilidade, e corro de um lado para o outro para levar minha filha à fisioterapia, à terapia ocupacional, à estimulação precoce, às consultas, procuro mais um tempinho para a fonoaudiologia e, futuramente, equoterapia (que tem resultados excelentes para o controle motor e equilíbrio). Meu marido corre junto, tantas vezes me substitui no trânsito e dá suporte para meu cansaço e nossas esperas. Estamos conseguindo, cada vez mais encontrando em nossos caminhos pessoas que nos amparam e nos ajudam na criação da Tereza. Estamos sempre tropeçando, eu principalmente, e ao mesmo experimentando as graças que se recaem sobre a nossa decisão de aceitar o que Deus planejou para nós.

Como me calar?

Hoje irei aproveitar esse espaço comum para colocar em discussão a vida dos bebês anencefálicos. A sociedade está em plena discussão sobre o tema, autorizar ou não o aborto desses bebês? Enquanto pessoa humana, quais são as suas dúvidas? O que te passa no coração quando tem que escutar isso? Eu penso em todas as mãezinhas que durante a gestação recebem a notícia que estão gerando um bebê com algum tipo de deficiência ou alguma síndrome desconhecida…

Algumas doenças são temerárias e complexas, provocam sofrimento e fazem muitos pais se colocarem diante de uma pergunta: interromper ou não a gravidez. Quantos pais, ao gerar uma criança com deficiência são “sugeridos” pelos médicos ou, até mesmo, amigos e familiares a praticar um aborto no feto (que naquele momento não é um bebê!)? Tive uma amiga, que descobriu que estava grávida de um bebê com um problema grave de formação, o intestino e o coração estavam fora do corpinho. Primeira coisa que ouviu das pessoas: você vai continuar essa gravidez? E todos a criticaram por decidir aceitar aquela gravidez até quando fosse o tempo de Deus para a vida dela. Afinal, era um filho, o filho dela, com uma doença grave e que não sobreviveria até o parto. Foi difícil? Claro que sim. Ninguém a desconsiderou, mas ela foi amada, compreendida e aceitou o que Deus planejara. O parto aconteceu no quarto mês, ela foi mãe, de um anjinho que não chegou a nascer e que mudou tantas coisas na vida dela e da família.

Partircularmente, eu entendo essa situação dos pró aborto desses bebês  como “busca da perfeição”. Temos tantas dificuldades em aceitar um filho não perfeito, que podemos extrapolar os limites do nosso “poder” em decidir sobre a vida deles. Chego a pensar nas vezes em que fui fraca, e pedi para Deus acabar com esse sofrimento de hospitais, remédios, doença… Não depende de nós! A vida dos filhos, o tempo de duração delas, o controle sobre os adoecimentos físicos, mentais ou espirituais nunca dependeram dos pais. Em reflexão durante essa Semana Santa percebi claramente que a minha filha tanto é Cruz, como é a mais pura Ressurreição em minha vida! Ela me completa em todos os sentidos. Não foi gerada por mim, mas quando Deus a colocou em minha vida, tive que escolher ficar com ela ou não, apesar de tudo. No próximo dia 23/04 vai completar dois anos que ela está conosco e é impossível aceitar que a minha vida poderia existir sem ela. Agradeço ao Senhor por não tê-la “abortado” de minha vida. Mas meu bebê tem cérebro, e sei que isso faz uma diferença enorme. E quantos dos bebês anencefálicos nasceram e viveram preciosos dias, para dignificação dos pais deles? Esses pais que os aceitaram, que permitiram que eles vivessem até o fim (afinal é desses pais que estamos falando), eles voltariam atrás e fariam aborto?

Nossa Igreja possui uma visão muito rica sobre tais aspectos que vivem sendo colocados na mídia. Deixo o texto do Cardial Odilo para finalizar essa discussão:

Bebês anencefálicos podem ser abortados?

 Cardeal Odilo Pedro Scherer – Arcebispo de São Paulo 

O tema representa um sério desafio atual, a ser abordado com serenidade e objetividade, tendo em conta critérios antropológicos e éticos gerais, e também os referenciais do ordenamento jurídico brasileiro, a começar da própria Constituição Nacional. O Supremo Tribunal Federal deverá pronunciar-se sobre a “legalidade” do abortamento de fetos, ou bebês acometidos por essa grave deficiência, que não lhes permitirá viver por muito tempo fora do seio materno, se chegarem a nascer.

A partir da minha missão de bispo da Igreja e cidadão brasileiro, sinto-me no dever de manifestar minha posição e de dizer uma palavra que possa ajudar no discernimento diante da questão. A decisão tem evidentes implicações éticas e morais; desejo concentrar minha reflexão sobre alguns desafios muito específicos, que se referem à dignidade da pessoa e da vida humana.

Em relação aos anencéfalos, existe o pedido da Confederação dos Trabalhadores da Área da Saúde para que o Supremo Tribunal Federal reconheça e estabeleça a legalidade da “antecipação terapêutica do parto” desses bebês, com forte pressão de grupos favoráveis ao aborto. No calor de muita emoção, podem não ser adequadamente percebidos os examinados argumentos falaciosos, que acabam por se tornar decisivos.

Os principais argumentos alegados a favor do aborto, nesse caso, são os seguintes:

a )  Tratar-se-ia de “vidas inviáveis” fora do útero materno; uma vez que os anencéfalos não sobrevivem por muito tempo fora do seio materno, para que manter semelhante gravidez e levá-la até o fim?

b) A gravidez de um anencéfalo representaria, para a mãe, um sofrimento insuportável, uma verdadeira “tortura”, que degradaria a dignidade da mulher;

c) Tratando-se de uma “anomalia”, o ser daí resultante seria indefinível, um “não-ser”, um “não-humano”; portanto, em relação a ele não entrariam em questão os argumentos do respeito à vida e à  dignidade humana;

d) Toda a atenção deveria ser dada à mãe, nesses casos, o único sujeito de direitos e de dignidade, a ser tutelado e protegido pela lei;

e) Os bebês anencéfalos seriam “natimortos”, pois a ausência parcial ou total do cérebro equivaleria à morte cerebral; para que manter tal gravidez? Por isso mesmo, os bebês acometidos por essa anomalia, que chegam a nascer, podem ser colocados na mesma condição dos adultos que estão com “morte cerebral” e seus órgãos poderiam ser retirados e doados.

f) O Brasil é um dos países que têm a maior incidência de anencefalia; seria necessário baixar este triste quadro.

Como se pode perceber facilmente, esses argumentos mereceriam ser examinados profundamente por peritos da área médica, do direito e da ética. De qualquer modo, as implicações morais são graves e não podem ser simplesmente resolvidas na emoção de um debate na opinião pública, ou a partir dos resultados de pesquisas de opinião, o que pode ser uma fácil tentação.

Os principais argumentos empregados pela CNBB são os seguintes:

a) O anencéfalo, malgrado a sua condição, é um ser humano vivo; por isso, ele merece todo o respeito devido a qualquer ser humano; ainda mais, por se tratar de um ser humano extremamente fragilizado; a sociedade, por meio de suas Instituições, deve tutelar o respeito pleno à sua frágil vida e à sua dignidade.

b) O sofrimento da mãe é compreensível e deve ser levado plenamente a sério; mas não pode ser argumento suficiente para suprimir a vida de um bebê com anomalia. Se o sofrimento da mãe, ainda que grande, fosse considerado argumento válido para provocar um aborto, estaria sendo aprovado o princípio segundo o qual pode ser tirada a vida de um ser humano que causa sofrimento grave a um outro ser humano. Não só em caso de aborto…

c) O sofrimento da mãe, que é pessoa adulta, pode e deve ser mitigado de muitas maneiras, quer pela medicina, pela psicologia, pela religião e pela solidariedade social; além disso, trata-se de um sofrimento circunscrito no tempo, que pode mesmo dignificar a mulher que o aceita, em vista do filho; mas a vida de um bebê, uma vez suprimida, não pode ser recuperada; e o sofrimento moral decorrente de um aborto provocado pode durar uma vida inteira. Além do mais, o sofrimento da mãe e o respeito à vida e à dignidade do filho são duas realidades de grandezas e pesos muito diversos e não podem ser, simplesmente, colocados no mesmo nível; o benefício do alívio de um sofrimento não pode ser equiparado ao dano de uma vida humana suprimid a.

d) É preconceituoso e fora de propósito afirmar que a dignidade da mãe é aviltada pela geração de um filho com anomalia; tal argumentação pode suscitar, ou aprofundar um preconceito cultural contra mulheres que geram um filho com alguma anomalia ou deficiência; isso sim, seria uma verdadeira agressão à dignidade da mulher.

e) O valor da vida humana não decorre da duração dessa mesma vida, ou do grau de satisfação que ela possa trazer aos outros, ou a ela própria. O ser humano é respeitável sempre, por ele mesmo; por isso, sua dignidade e seu direito à vida é intocável.

f) O cerne de toda a questão está nisso: os anencéfalos são “seres humanos”? São “seres humanos vivos”? Apesar dos argumentos contrários, não há como colocar em dúvida a resposta afirmativa às duas perguntas. Portanto, daí decorre, como conseqüência, que ele deve ser tratado como “ser humano vivo”.

g) Permanece, de toda maneira, válido que só Deus é senhor da vida e não cabe ao homem eliminar seu semelhante, dando-lhe a morte; nem mesmo aqueles seres humanos que não satisfazem aos padrões estéticos, culturais, ou de “qualidade de vida” estabelecidos pela sociedade ou pelas ideologias. A vida humana deve ser acolhida, sem pré-condições; não somos nós que damos origem a ela, mas ela é sempre um dom gratuito. Não é belo, não é digno, não é ético, diante da vida humana frágil, fazer recurso à violência, ou valer-se do poder dos fortes e  saudáveis para dar-lhe o fim, negando-lhe aquele pouco de vida que a natureza lhe concedeu. Digno da condição humana, ness es casos, é desdobrar-se em cuidados e dar largas à solidariedade e à compaixão, para acolhê-la e tratá-la com cuidado, até que seu fim natural aconteça.

São Paulo, 03.04.2012

Mãe Esposa Psicóloga e Mulher

Maio de 2011

Quando minha licença maternidade acabou, a Tetê tinha um ano recém completado, e foi horrível… Como eu poderia voltar a trabalhar se a minha filha ainda não sentava, não falava, não engatinhava e não comia direitinho? Como faziam as outras mães que passavam por isso quando o bebê tinha cinco meses? Não me ensinaram a passar por isso quando me ensinaram a estudar, a trabalhar, a me tornar uma mulher moderna e independente! Eu sempre amei trabalhar, era quando eu me sentia mais dona de mim, mas agora estava ali, em frangalhos.

Meu primeiro passo foi arranjar uma babá. Fiz direitinho, como “manda o figurino”, por intermédio dos anjos, estava lá eu com ela, antes de acabar minha licença, e tudo seria perfeito. Puro engano! Sentimentos dos mais contraditórios alcançaram meu coração, estava tremendo de medo, com ciúmes, como se tivesse minha vida invadida por uma estranha, como se minha filha pudesse gostar mais dela que de mim. Afinal, se minha filha não saiu da minha barriga, se eu também era estranha a ela, mas passei a cuidar dela, como ela poderia reconhecer que outra cuidadora integral não seria mãe dela?

E como poderia saber naquele momento o que seria melhor para minha filha? Ela conseguiria se defender? Ela seria estimulada ou deixada no bebê conforto em frente à televisão como acontecia no Abrigo? Aquilo me corroia, e a dúvida pairava em minha racionalidade: como poderia voltar a trabalhar? Ao mesmo tempo, eu sentia falta de ser a Jussara profissional, a Jussara além da mãe!

Fora o fato maravilhosamente angustiante: minha mãe não queria outra pessoa cuidando da neta dela, ela era quem queria cuidar! Chegou a me dizer que passara dez anos pedindo a Deus por uma netinha e agora outra pessoa cuidaria dela? E isso também me preocupava, pois eu já estava casada há todo esse tempo, então não dependia mais de minha mãe, como seria voltar a depender dela? Como poderia ocupá-la com tamanhas preocupações, inclusive esforço físico? Ao mesmo tempo em que não queria sobrecarregá-la, o meu coração se enchia de paz de saber que a avó era a melhor pessoa para cuidar da minha filhinha.

Só ficava pensando: por que a licença maternidade não dura até os dois anos da criança? Isso seria ótimo! Enfim, não é a nossa realidade. Decisões, decisões, decisões… após um grande esforço mental, conjugal e familiar conseguimos, finalmente, entrar em um acordo. Não consegui ficar com a babá, durou dois dias! Entendemos que a melhor opção era a casa dos avós. Voltei a trabalhar, mas nunca imaginei que seria tão difícil conciliar a vida de trabalho com a saudade, o ser mãe de uma criança com deficiência, ah, e com os dentinhos nascendo… Eu já estava preocupada, mas eles começaram a apontar!

Agora, completando sete meses de minha volta ao trabalho (e se pensar bem, é a metade de minha vida com minha filha), começo a pensar se não estou perdendo muito tempo trabalhando tantas horas longe dela. E outra, se o ápice do desenvolvimento cerebral é até os três anos, a fisioterapia duas vezes por semana é suficiente? Isso tem me afetado muito, Deus me confiou a vida dessa filha maravilhosa, e veio com isso a estimulação dela, enquanto família, precisamos investir no desenvolvimento dela, em tudo o que ela puder. É preciso mudar de atitude!

Esses foram os pensamentos que tive durante as duas horas de atraso no vôo de volta para casa, em minha primeira viagem de trabalho. Estava tão exausta. Quando cheguei a minha casa, tudo piorou, meu marido chateado, a Tetê suada de tanto chorar, minha mãe dizendo que ela sente muito a minha falta, ficava olhando para a porta esperando eu chegar… Eu já trabalho há tantos anos e só comecei a ter filho agora, quero me dedicar a ela! Às vezes, minha sensação é que quando trabalhamos tanto, só fica o cansaço para aproveitar, tudo parece mais difícil: fazer as papinhas, acordar noites seguidas, levar para casa da vovó, para a fisioterapia, para as consultas, acordar cedo para ir ao trabalho, voltar em casa na hora do almoço… affff, cansei do meu dia a dia.

Mas ao acordar toda manhã, quando vou ao berço da minha Pepekinha, o sorriso que eu recebo é o mais gratificante de todos! Isso é o que nos fortalece! Acho que estou pronta para pedir demissão e ficar mais tempo com ela. Os próximos três anos são mais importantes para o desenvolvimento motor e afetivo dela, que a minha carreira profissional.

Estamos em maio. Há um ano recebi a graça de me tornar mãe da minha Tereza. É tempo de ponderar as novas conquistas de nossas vidas, o rio continuando a correr, as águas que nunca são iguais, e os planos de Deus que são perfeitos para todos nós. Enfim, preciso aprender com tudo isso, e é bom contar com as orientações de outras mãezinhas que passaram por todas as coisas que eu estou passando. Estamos aprendendo muito. Agora que estou começando a me sentir decidida, o meu coração está mais tranqüilo. Falei com o meu marido e ele me apoiou, mesmo nesse momento difícil que estamos por causa do nosso apartamento, temos fé! Vou falar com minha “chefe”, depois conto para vocês como continuaremos essa história de conciliar meus papéis mãe, esposa, psicóloga e mulher!

Eles disseram… NÓS acreditamos!

Hoje eu quero escrever sobre o quanto minha vida é maravilhosa com a presença da Maria Tereza e do André. Somos uma família autêntica e verdadeira, em Deus e em nós mesmos. Somos uma pequena Igreja, somos família de Nazaré vivendo todos os nossos pequenos passos.

Estava pensando em algumas das frases que ouvimos desde o dia em que adotamos nossa Maria… e tudo começou assim: O primeiro impacto da notícia de que minha filha não seria capaz de mamar me causou uma angústia muito grande. Mas não desistimos! Foram muitas lágrimas, muito leite jogado fora, muitas orações, e muita alegria no momento em que ela saiu dos 15ml da chuquinha para hoje tomar sem derramar nem um golinho, os seus 210ml de leitinho, ou suquinho, quantidade bem própria para a idade dela!

E logo veio outro susto: “não sei não… essa menina é muito molinha para a idade dela, não podemos nem dizer que ela vai sustentar a cabecinha, ela mal se mexe. Acho que vocês tem que pensar bem antes de ficarem com ela…” Foi um momento bem difícil, nós querendo uma filha, esperando receber a tamanha graça de nos tornarmos pais e sentindo um medo enorme de não estarmos prontos para recebê-la, de não sabermos cuidar dela, de ter uma criança tão diferente do que sonhávamos há anos. Porém, nosso temor passou e arriscamos, experimentamos a confiança de que Deus não faria a Obra pela metade. O trabalho é duro, mas as conquistas são plenas!

E mais um medo foi querendo nos assombrar… “essa criança já tem sete meses e de sonda???  ela não será capaz de se alimentar via oral, é bom vocês pensarem em uma gastrotomia”. Confesso que esse foi uma das falas que mais me deu medo no hospital, eu estava tão insegura com tudo o que estava acontecendo. No entanto, o Deus fiel nos mandou seus anjos, e eles nos encontraram prostrados e nos elevaram. Cumpriram em sua missão de nos fazer crer que tudo seria possível. Muitas técnicas fonoaudiológicas fomos praticando, o homem se esculpindo à imagem e semelhança de Deus para conseguir tudo o que o Senhor sonhou para nós. E agora? Temos muitas dificuldades de mastigação a serem superadas, sim temos muito trabalho a fazer, mas nossa filha come de tudo, e via Oral, se é que me permitem dizer!

E agora prestem atenção nessa outra parte. De um lado controle cervical e de tronco, do outro controle dos membros superiores e inferiores… nossa luta ainda não terminou por aqui!!! Nossa filha está com dois anos e quatro meses e AINDA não senta sem apoio e AINDA não se locomove sozinha. Estamos desistindo? Como poderíamos se a nossa guerreira quer sentar? Se a nossa filhotinha quer andar? Já perceberam a satisfação dela? Já viram a boquinha de esforço que ela faz a cada tentativa? Já ouviram o choro frustrado quando não consegue? Nossos esforços em fisioterapia, terapia ocupacional e psicomotricidade estão nos levando a acreditar cada vez mais nessas conquistas. Este é o nosso sonho se tornando cada vez mais possível! Temos data para quando isso vai  acontecer? Não. No entanto, fé é isso né? Como já repeti tantas vezes: “acreditar naquilo que não se vê”. E nós estamos quase vendo!

Sim. Eles erraram. Erraram porque não a conheciam. Erraram porque não a estimularam. Erraram porque não a amaram. Hoje, o que mais penso é que nós acertamos! Acertamos apenas por aceitar a Tereza em nossas vidas. Acertamos porque queremos fazer a nossa parte na Obra que Deus nos confiou. Acertamos porque queremos ver em nossa vida o resultado do Supremo Amor. Acertamos por aceitarmos ser a FAMÍLIA dessa pequenininha que nos destinou ao amor paternal mais sublime que poderíamos sequer sonhar. Acertamos porque Acreditamos.

E o resultado? Está aqui: